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sexta-feira, 6 de junho de 2014

O avanço do PIB de 0,2% reflete o ciclo de alta de juros no Brasil

A expressão “devagar, quase parando” coube como uma luva para o resultado do Produto Interno Bruto do primeiro trimestre deste ano. O avanço da economia de 0,2% entre janeiro e março foi pior do que o esperado pelos economistas. Houve recuo ou crescimento menor de praticamente todos os componentes da demanda em comparação com os três meses anteriores: o consumo das famílias caiu 0,1%, o da administração subiu 0,7%, contra 0,9% do trimestre anterior, a taxa de investimento caiu 2,1%, e as exportações recuaram 3,3%. Somente as importações subiram 1,4%.
O que aparece agora nos números macroeconômicos já vinha se antecipando em outros indicadores. O índice de confiança do consumidor medido pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio), por exemplo, teve uma queda de 25% de maio do ano passado para cá, num movimento quase paralelo ao ciclo da alta de juros que começou em abril de 2013. A taxa de referência do Banco Central tem subido desde abril de 2013 como o remédio amargo para contrair o consumo, no intuito de reduzir a inflação. Menos confiante com o futuro, o consumidor compra menos. “O aumento dos custos com crédito reduziu o consumo ”, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, nesta quinta-feira.
Da mesma forma, o empresário deixa na gaveta seus planos de expansão, até porque precisa encarar crédito mais caro para colocar em marcha os seus planos. Mantega acredita que essa equação vai se reverter à medida que o consumo se recuperar com os índices inflacionários sob controle. “Com a inflação menor há mais espaço para tomada de credito, já que a inadimplência está baixa”, completou o ministro.
Ciente de que os juros mais altos são um mal necessário, mas que afeta o desempenho econômico, o BC decidiu interromper o ciclo de alta de juros na reunião realizada nesta semana, mantendo os juros em 11%. Os resultados dessa medida, porém, só aparecem no médio prazo.
Segundo Fabio Silveira, da GO Associados, o ciclo de alta é o primeiro aspecto a ser considerado. “Mas também houve uma queda de exportações, em função da desvalorização mais tímida da taxa de câmbio”, diz Silveira. A média do câmbio em relação ao dólar manteve-se em 2,36 reais no primeiro trimestre deste ano, contra 2,28 reais no último trimestre do ano passado. A moeda desvalorizada torna-se um fator de competitividade, e se ele estivesse na casa dos 2,70 reais, por exemplo, essa queda teria sido atenuada, acredita o economista.
Para José Ricardo Bernardo, sócio da GBI consultoria internacional, o recuo das vendas externas também teve a queda do preços das commodities no mercado internacional como fator preponderante. “As dificuldades da Argentina e da Venezuela prejudicam o resultado”, diz ele. O temor de calotes de pagamento, explica Bernardo, também inibe a ação dos exportadores. O crescimento mais lento da China é outro fator que fez a economia patinar, assim como a retomada lenta dos Estados Unidos.
Mantendo o habitual otimismo, Mantega previue uma retomada da atividade global que vai melhorar os resultados no segundo trimestre. Um dos setores que, segundo ele, devem puxar essa recuperação é a agricultura, que deve crescer nos próximos meses, pois trata-se de “época de colheita.” No primeiro trimestre, o setor agrícola cresceu 3,8%. O Ministério da Fazenda projetava um crescimento de 2,3% para este ano. Mas, o ministro não confirmou essa projeção, embora também não tenha falado em revisão dos números.
O resultado do ano passado foi revisto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com a inclusão de novas informações econômicas relativas à produção industrial mensal. Assim, o PiB de 2,3% do ano passado foi revisado para 2,5%.
Silveira lembra que 2014 tende a ser um ano morno em função da Copa do Mundo e das eleições, o que termina por adiar novos projetos de longo prazo. No acumulado em 12 meses, o PIB fica em 2,5%, na comparação com os quatro trimestres anteriores. Até o final do ano, porém, a economia deve fechar com um crescimento de 1,5%, avaliam alguns economistas. Isso significa que o emprego tende a crescer menos, inclusive com demissões pontuais no segundo semestre. “Nada que afete os fundamentos”, acredita Silveira.
Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/05/30/economia/1401463980_300653.html

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