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terça-feira, 18 de março de 2014

Bimestre afasta sonho de ajuda externa ao PIB

Por Denise Neumann

Uma pergunta ficou no ar após a divulgação dos resultados do Produto Interno Bruto (PIB) de 2013. De onde pode vir algum fôlego extra para ajudar a economia em 2014? Nos últimos dez anos, investimento e consumo se alternaram nesse papel. Embora o investimento acumule 94% de alta nesse período, percentual bem superior ao do consumo das famílias (57%), são fortes os sinais de que esse motor estará fraco neste ano.
Primeiro, a economia perde o impulso dado pelo BNDES. O governo reduziu em 20% as estimativas de desembolsos a serem feitas pela instituição neste ano. Mesmo considerando que uma parte expressiva dos desembolsos liberados pelo banco no ano passado (valor recorde de R$ 190 bilhões) ainda vai se materializar em Formação Bruta de Capital Fixo - máquinas, equipamentos ou construção civil - ao longo deste ano, é uma desaceleração expressiva.
Outra ajuda poderia vir das concessões. Reportagem publicada em dezembro no Valor, da repórter Flavia Lima, mostrou que as concessões do ano passado embutiam investimentos futuros de R$ 64 bilhões sem o campo de Libra e de R$ 140 bilhões com esse projeto. Mas os recursos serão liberados ao longo de muitos anos e uma pequena parte (10% talvez) já virá neste ano. É pouco, pois em 2013 o país investiu R$ 890 bilhões...
Preço de exportação das commodities está em queda
Os sinais também são de enfraquecimento da demanda das famílias (que já registrou no ano passado o menor crescimento em dez anos) e do governo (que precisa conter despesas e não costuma crescer acima do PIB em anos de eleições).
A demanda interna - investimento, famílias e governos - tem crescido acima da média do PIB nos últimos anos. Somente desde 2010, o crescimento acumulado do consumo doméstico é de 19% (4,5% ao ano, em média), para um PIB de 14% (3,3% a o ano em média). Nesse período, portanto, o setor externo tirou quase 5 pontos percentuais do PIB brasileiro em função do forte incremento das importações de bens e serviços.
Uma mudança nessa composição - com o setor externo ajudando o crescimento brasileiro - era uma aposta para 2014. Ao longo dos primeiros dois meses deste ano, porém, essa possibilidade ficou mais complicada. Além das crises na Argentina e na Venezuela, há queda de preço nas commodities exportadas pelo país e a reação na balança de petróleo e derivados ainda não começou.
Em fevereiro (até a terceira semana do mês), 15 das 23 commodities mais exportadas pelo Brasil (agrícolas e industriais) tiveram queda de preço em relação a 2013. Sozinhos, minério de ferro, soja, petróleo, frango e açúcar respondem por 35% de toda exportação brasileira. E todos foram vendidos em fevereiro por um preço médio inferior ao de igual mês do ano passado. Com exceção do minério de ferro, que em janeiro ainda foi vendido por um preço superior ao de 2013, a cotação dos demais já foi menor desde então.
As quedas de preços não foram pequenas: 8% na soja, 5% no minério, 10% em petróleo, 19% em açúcar bruto e 14% no frango. Na média, em fevereiro, levantamento da GO Associados indica que o preço das principais commodities exportadas pelo Brasil foi 3,6% menor que em igual mês do ano passado, ainda que tenha superado (3,2%), o preço médio de janeiro. A crise na Ucrânia e problemas climáticos no Brasil mexeram nos preços, mas sobre 2013, a tendência é de queda.
Outra aposta do setor externo ainda não se materializou nos dois primeiros meses. As exportações de petróleo até cresceram em janeiro (sobre janeiro de 2013), ajudando a reduzir o déficit do país na balança de óleo bruto e derivados. O saldo negativo passou de US$ 3,7 bilhões em janeiro de 2013 para US$ 2,1 bilhões em igual mês deste ano, segundo dados do Ministério de Desenvolvimento (Mdic). Ainda é cedo para cravar uma tendência (até porque os embarques e desembarques desse grupo de produtos são muito voláteis semanalmente), mas as apostas eram de uma melhora mais expressiva. Em fevereiro, por exemplo, a exportação de petróleo piorou bem até a terceira semana.
Por destino, a China continua firme e forte, no caso do Brasil. No segundo semestre do ano passado as exportações para China, Argentina e Venezuela foram melhores (e cresceram mais) do que no primeiro semestre. No caso da China, elas refletem produtos básicos (cujo preço havia subido). No caso de Argentina e Venezuela, o câmbio ajudou a venda de manufaturados. As vendas para a Argentina, por exemplo, subiram 5,5% de janeiro a junho de 2013 e 13% de julho a dezembro; para a Venezuela, houve queda no primeiro semestre, e alta de 7,4% no segundo período do ano. Para estes dois mercados, contudo, janeiro foi terrível, e as exportações recuaram 14% e 15%, respectivamente. Para a China, as exportações cresceram 28% em janeiro deste ano, mas o número pede calma, pois no começo de 2013 as exportações de minério foram afetadas por chuvas e enchentes em Minas Gerais e em janeiro houve US$ 190 milhões em exportação de petróleo que não existiram em janeiro do ano passado.
O setor externo não conseguiria substituir a força da demanda das família ou do investimento na composição do PIB. A ideia era, contudo, que ele deixasse de "atrapalhar" e que o real menos valorizado abrisse espaço para um aumento das exportações de manufaturados e reduzisse um pouco o ímpeto das importações, permitindo alguma recomposição do fornecimento doméstico de insumos, componentes e mesmo de bens finais. Nada disso parece estar acontecendo. As exportações de manufaturados caíram 2,6% em janeiro e 14% em fevereiro (média diária até a terceira semana) em relação ao mesmo período do ano passado.
Sem demanda interna e com o setor externo ainda fora do rumo esperado, talvez 2014 seja um ano para um PIB sem motores, onde tudo caminhe um pouco, e dentro do mesmo ritmo. Um crescimento homogêneo - ainda que ao redor de 2% - pode até ser uma boa notícia, dependendo da inflação e do resultado fiscal que lhe fizerem companhia.
Denise Neumann é repórter especial. Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna de Cristiano Romero
E-mail: denise.neumann@valor.com.br


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